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Out 10



O livro que nos mostra a II Guerra Mundial ao contrário

Tinham já passado dezasseis anos sobre um dos maiores conflitos da História mundial quando Philip K. Dick pegou na sua caneta e ousou imaginar um final diferente para a Segunda Guerra Mundial; um final onde os vencidos saíram vencedores. Assim, escreveu "The man in the high castle", uma história que roça o género da ficção científica e da história alternativa, e que leva os leitores a pensar como seria o mundo de hoje, caso os alemães e japoneses se tivessem tornado nas grandes potências mundiais.

Considerado um dos autores mais importantes da Colecção Bang!, publicada pela Saída de Emergência, Dick tem agora traduzida para portuguesa sua obra mais conhecida. "O Homem do Castelo Alto" conta com prefácio de Nuno Rogeiro, que explicou ao Goodliving como foi colaborar neste projecto.


GL -
Como surgiu a oportunidade de escrever o prefácio deste livro?
Nuno Rogeiro (NR) - Em 1982, três meses depois da morte de Philip Dick, escrevi um ensaio que foi publicado na revista "Futuro Presente", dirigida por mim, por Jaime Nogueira Pinto e outras pessoas. Escrevi-o nos Estados Unidos onde a sua morte tinha sido muito menos sentida do que na Europa. Dick sempre foi para mim um autor de cabeceira praticamente desde a adolescência, e era muito mais conhecido na Europa como grande escritor de ficção em geral. O que me levou mais a escrever esse ensaio foi precisamente o choque que tive ao perceber que os americanos não se interessavam muito por Dick nessa altura. Hoje é um objecto de culto, 28 anos depois. E foi daí que surgiu a oportunidade de prefaciar este livro.


GL -
O que mais o atrai nesta história de Dick?
NR - Não sei se será o seu melhor livro. Philip K. Dick escreveu centenas de coisas e ainda há muito por revelar deste autor, sobretudo no que diz respeito à ficção geral. É essencialmente uma ficção dedicada aos problemas familiares, com base com o que ele assistiu na sua Califórnia natal. Mas se este não é o seu melhor livro é talvez o mais reconhecido, porque ganhou o famoso prémio Hugo, muito importante. O que me atrai mais é provavelmente o facto de ele ter trazido para o universo da literatura um género pouco conhecido, que é o da história alternativa. Partindo do principio que se as coisas n ão se tivessem passado assim, como é que teria sido? Se calhar é algo que nós nos questionamos sobre as nossas vidas e as vidas dos outros. As vidas têm sempre encruzilhadas. Trata-se de um livro onde temos de nos interessar pelas personagens, para onde elas vão e de onde vêem e os percursos que tomam. É uma obra que quando encerra deixa talvez mais dúvidas do que quando se inicia a leitura, e, no fim, descobrimos que afinal não era só um livro de história alternativa mas que é essencialmente um romance psicológico, com imagens que temos de agarrar com as duas mãos para percebermos o percurso das personagens.


GL -
Se os acontecimentos da II Guerra Mundial tivessem tomado o rumo que o livro de Dick sugere, como seria hoje o mundo?
NR - Se calhar não era muito diferente daquele que o escritor imaginou. Os Estados Unidos teriam perdido a guerra a favor da Alemanha e do Japão. Se a Alemanha, potência tecnologicamente avançada no livro, tivesse vencido, provavelmente o mundo ocidental falaria hoje alemão com todas as consequências que isso tem; poderíamos depois imaginar uma sequela em que se saía da Alemanha do Terceiro Reich e passava a ser uma Alemanha pluralista, o que também teria consequências. Podíamos continuar esta história, imaginemos que o Japão tinha ocupado metade dos Estados Unidos, a costa pacífica, em São Francisco, onde se passa a maior parte deste livro; imaginemos que o Japão deixava de ser um Império e passava a ser uma República. Apesar de o mundo poder ser parecido com aquele que descreve Dick, a verdade é que as potências que ganhavam a guerra também podiam ter evoluído depois. O facto de o Japão real ter continuado um Império, a verdade é que hoje já não se crê que o imperador descenda de um ser divino. Portanto podemos imaginar um mundo igual ao do Dick, mas sempre aberto a evoluções.


GL -
Quais as conclusões que o mundo de hoje pode tirar da Segunda Guerra Mundial?
NR - Foi um conflito essencialmente ideológico e esse foi o problema, travou-se não apenas em termos de território e no controlo dos povos mas também em termos políticos, foi talvez a antecipação do que seria a Guerra-Fria se esta se tivesse tornado numa "Guerra Quente". Poderiam ter existido semelhanças, com a agravante de que a Guerra-fria surgiu pelo desenvolvimento da bomba atómica, o que seria catastrófico caso a Segunda Guerra tivesse tomado essas proporções. A Segunda Guerra constituiu o primeiro conflito ideológico do século XX, com alguns elementos que ainda hoje nos horrorizam.


GL -
O Holocausto...
NR - Foi apenas um dos genocídios que se deram na Europa. Para além dos judeus, houve também o desaparecimento de milhões de ucranianos, bem como outros povos que também sofreram e que têm direito à memória, nomeadamente os que foram sacrificados do lado de lá, o lado de Estaline. Aliás, um dos paradoxos da Segunda Guerra é que um dos aliados do Hitler, precisamente Estaline, ganhou também a guerra. Portanto nem todos os aliados do Terceiro Reich perderam o conflito.

Para seguir aqui no Good Living Online Press.

publicado por saidaemergencia às 16:06

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