13
Out 10

Algumas obras criaram impacto na cultura popular e Philip K. Dick é o criador de muitas dessas obras marcantes. O Homem do Castelo Alto, um livro que deu novos significados ao conceito de História Alternativa, é uma obra que a SdE volta a recuperar numa nova tradução de David Soares, acompanhada de um excelente ensaio da autoria de Nuno Rogeiro sobre o autor visionário e o conjunto da sua obra, com particular destaque a O Homem do Castelo Alto.

 


 

Dia 14 de Outubro, o jornalista irá apresentar esta obra ao público português numa sessão na Fnac Colombo, às 18.30. Apresentamos aqui um excerto do seu ensaio e contamos com a vossa presença para descobrirem mais sobre a fascinante obra de um dos autores mais influentes da segunda metade do séc. XX.

 

 

A narrativa Dickiana é, na forma e conteúdo, um animal complexo, sobretudo tendo em conta os velhos parâmetros da “ficção científica” mais comum. A interposição de trechos alegóricos, citações, fragmentos de memórias de diversas eras e de muitos afluentes civilizacionais (desde antigos manuscritos orientais até poemas de Goethe, de referências a Eliot, e a algumas tradições célticas, a textos políticos sobre os fascismos europeus, de alusões esotéricas a recordações de Platão, de Aristóteles, de Zenão), para além do culto constante do paradoxo, associa-se aos vários níveis de interpretação, aos sonhos dentro dos sonhos, como as pequenas bonecas russas, à ambiguidade militante, e à impossibilidade de decifrar mensagens completas. Ou seja, a dificuldade de perceber a moral da história (e a Moral da História).
Encontra-se também em Dick algo das complexas conversas interiores de autores da vanguarda europeia, desde o maldito Lautréamont até aos não menos amaldiçoados Knut Hamsun e Céline. A ideia de um universo em pânico, ou enlouquecido, e de relatos claustrofóbicos e quase tirados de documentos de medicina psiquiátrica, atribui também muito de pós-moderno a Dick, já nem tendo em conta o fascínio que exerceu em certos filósofos franceses, como Braudillard (a propósito do conceito de “simulacro”, entre outros).
Essa “sofisticação” de um género que em muita mainstream encontra um tratamento uniforme, grandíloquo, artifi cial, foi algo que separou Dick dos interesses comerciais de muitas editoras, e de uma larga massa de leitores pouco exigentes do Novo Mundo. Tal audiência preferia embriagar-se com guerras planetárias, em que lasers e phasers aniquilam milhões de seres, que não chegamos a conhecer, e em que heróis irreais e pouco elaborados vagueiam pelo espaço, semeando catástrofes ou benesses tecnológicas, em naves imperiais de pacotilha.

publicado por saidaemergencia às 10:17

Novidades