21
Fev 10

 

Mais do que um editor de literatura fantástica, sou um fã do género. Por isso é duplamente gratificante publicar David Soares. Beneficio do mérito em editar um autor de excelência e ainda tenho o prazer de editar um autor que admiro. Para mim, David Soares é o melhor escritor de literatura fantástica em Portugal. A anos-luz de qualquer outro. E passo a explicar o porquê.

 

David possui aquela qualidade rara que é contar uma história fascinante recorrendo a uma escrita superior. O seu português é maravilhoso. Musical. As suas frases nunca são demasiadamente compridas ou curtas. São perfeitas na medida. Quase todas as palavras têm sinónimos, mas David escolhe sempre a mais certa. Nenhum sinónimo ficaria melhor. Os diálogos das personagens são um dos seus pontos fortes. Fluem normalmente, sem artifícios, cumprindo o objectivo dos diálogos. Mas ao contrário de muitos autores que se ficam pela beleza da escrita, para satisfação de tanta crítica para quem isso é suficiente, David vai mais longe. Muito mais. A sua escrita é apenas a ferramenta para contar uma história.

 

E esse é outro ponto forte de David. A sua habilidade para imaginar histórias. Valendo-se de uma imensa capacidade para esmiuçar ensaios, biografias e livros antigos que desencanta em alfarrabistas, David atira-se para a criação dos seus enredos com infinita preparação. Disciplinado, diligente, honesto e resignado com as dores do parto, David vai equilibrando camada de enredo sobre camada de enredo, onde tudo tem uma razão e nada foi deixado ao acaso. Na escrita de David não existem personagens de cartão. Sejam figuras históricas ou anónimos arrancados à imaginação, há complexidade em todas elas. E em todas se pressente a existência de uma vida inteira.


Mas David Soares não dá vida apenas às figuras que vivem e morrem nos seus romances. Outro dos seus dons é dar vida a toda uma época. Dizem os cientistas que viajar no tempo nunca será uma realidade. Valem-nos os autores que conseguem transportar o leitor para épocas distantes e preencher-lhe os cinco sentidos. David é um desses autores.
Depois de descritas tantas virtudes e sendo já autor de culto para um nicho, porque permanece David Soares desconhecido do grande público? É certo que a crítica engravatada vem sempre de arrasto, mas é quase irresponsável a forma como se promove tanta mediocridade e se ignora um autor assim. Talvez se não publicasse connosco mas sim num dos grandes grupos, talvez se renunciasse ao fantástico e escrevesse algo mais mainstream, David arranjasse um padrinho para lhe apresentar gente bem posicionada e, quem sabe, encomendar o próximo prémio Saramago.


O Evangelho do Enforcado chega amanhã às bancas. Para quem nunca leu este autor deixo o convite. Leiam e depois digam-me se foram exagerados os elogios. Para quem já conhece o autor, será apenas mais um degrau numa escadaria de excelência para o sucesso.

 

Luis CR [editor]

 

 

publicado por saidaemergencia às 20:56

2 comentários:
Tal como o Luís, também sou fã de literatura fantástica e sempre que posso compro livros deste género e tal como referiu:

"porque permanece David Soares desconhecido do grande público?"

No meu caso só através do vosso site e blog fiquei a conhecer David Soares, pois nunca tinha ouvido falar deste autor. Em Portugal existe o "mal" de se julgar sempre o que é "nosso" como medíocre e são poucos os autores portugueses que são conhecidos ou reconhecidos pelos livros que escrevem, a não ser que tenham alguém por detrás ou sejam figuras públicas.

Por isso dou os meus parabéns à SdE por ainda se atrever a publicar autores nacionais que não são conhecidos por serem amigos ou afilhados de fulano.

Já agora, fiquei imensamente curiosa para ler um dos livros de David Soares, pois adoro autores que são capazes de escrever como o Luís descreve no seu post.

Espero que continuem o vosso excelente trabalho e não caiam no abismo em que as grandes editoras, como são apelidadas, têm vindo a cair, em que tudo o que lhes importa é publicar obras de autores estrangeiros que os façam ganhar muito dinheiro e não dão qualquer hipótese a autores nacionais, conhecidos ou desconhecidos.
Assim como podem os nossos escritores evoluir se não há editoras nacionais que aceitem publicar as suas obras?

Espero que em breve nos presenteiem com mais obras de autores nacionais.

Carina
Carina a 22 de Fevereiro de 2010 às 09:09

Tal como o Luís também sou fã de literatura fantástica e dou os parabéns a SdE por investir nesta área, presenteando-nos com vários títulos de grande qualidade.

David Soares é até agora o único autor português presente na vossa colecção Bang! e compreendo que a editora invista nele e nos seus livros, mas não posso deixar de achar um pouco injusto para com os outros autores portugueses presentes por exemplo na vossa colecção TEEN, como o Bruno Soares, Bruno Martins e mais recentemente Francisco Dionísio.

O Luís também é editor pelo menos destes dois últimos, porque não investir também um pouco neles e na divulgação das suas obras no blogue da editora?

Também não acho que seja agradável para os outros autores lerem que o que passo a citar:
“ Para mim, David Soares é o melhor escritor de literatura fantástica em Portugal. A anos-luz de qualquer outro.”

Não quero com isto dizer que o David não seja de facto um bom escritor, mas também acho que o estão a “elevar” demasiado. Claro que esta é a sua opinião, mas o Luís é editor, o que faz com que para muita gente a sua opinião tenha muito peso ou provoque o efeito contrário, porque é o editor do David Soares.
Vanda a 29 de Abril de 2010 às 09:27

Novidades