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Jan 10

 

Um "quase Nóbel" e outro não.

Recentemente tive oportunidade de ler 3 livros por puro prazer (coisa rara para um editor!). Escolhi-os rapidamente com três critérios: um da minha prateleira, um que há muito estava na minha lista dos "tens que ler" e um dos sucessos do momento.

Não sei se toda a gente pensa da mesma maneira, ou sequer se pensam nisto, mas para mim os livros têm estações. O Mundo do Fim do Mundo é um livro de Inverno. Não procurava uma nova voz ou descobrir um autor para a minha estante pessoal. Sepúlveda já era um dos meus autores preferidos e comecei a ler com a certeza de que era um livro que não tinha que me provar nada. Li como quem visita um amigo e escuta uma história. E o Sepúlveda é, talvez, o melhor de todos os contadores de histórias. Quem leu, sabe do que falo. Quem não leu, por favor leia. Leia e releia e comece com O Velho que Lia Romances de Amor. Não há muitos escritores que nos apelam desta maneira aos sentidos. Sepúlveda escreve como quem se senta ao pé de nós junto a uma lareira e nos faz passar o melhor dos serões de Inverno. É acolhedor de ler e não consigo deixar de pensar que sinto sempre que estou a ouvi-lo falar, e não a ler. Desta vez a história começa na Alemanha, o que pode parecer um choque para quem espera sempre visitar locais exóticos. Mas rapidamente ingressamos no Cabo do Fim do Mundo, e parece que estamos a navegar nas embarcações que ao longo dos anos cruzaram as mesmas àguas que o nosso grande Fernão de Magalhães. Fala-nos de um mundo austero e desconhecido, e fascina-nos com histórias repletas de sabedoria. Fala-nos das crueldades do passado e dos crimes ambientais do presente, conseguindo levar-nos quase às lágrimas. Coloca-nos a mão na consciência e faz-nos querer ser cada vez melhores. Sepúlveda é um dos grandes "activistas" e os seus livros são um hino à preservação e respeito pelo mundo que herdámos. Um grande escritor e um grande homem que coloca muito de si nos seus livros.

Philip Roth é, como se diz, o eterno candidato a Nobel. Há algum tempo que andava com muita vontade de ler alguma coisa dele, e confesso que escolhi o Animal Moribundo um pouco ao acaso. Não sabendo muito bem qual a sua obra de referência, escolhi um que me pareceu curioso. E não há dúvida de que escreve bem. A história cumpre, mas a escrita e a forma como nos envolve, coloca-o bem acima da média. Não fazendo exibicionismos de escrita, Roth consegue prender-nos a atenção e fazer-nos sentir a sua personagem sem grandes altos e baixos. O personagem principal é um velho e mediático professor, que depois dos seus longos anos de vida boémia, conquistou notoriedade e até o direito a um programa cultural na televisão. Ora isto torna-o "apetecível" e facilita-lhe o acesso àquilo que sempre fora a sua perdição: as mulheres. Jovens alunas, não tão jovens companheiras, enfim... Percebe-se nas primeiras páginas o rumo que o livro vai tomar, e nesse aspecto não surpreende. Mas é a forma como vai lidar com os seus sentimentos e o inevitável envelhecer do seu corpo que tornam o livro e o personagem interessantes. Falando mais ia estragar o prazer da leitura. Por isso, prefiro recomendar e dizer que é um bom livro. Mas nem por isso o Philip Roth é um monstro da literatura como muitos apregoam. Bem abaixo, aliás, de muitos escritores que nunca receberam o Nóbel ou que nunca foram premiados sequer. Talvez não tenha lido o seu livro mais magistral. Fiquei com vontade de conhecer melhor a obra.

 

Para último tinha ficado o Caím de José Saramago. Não esperava ter que comprar outro livro, mas a verdade é que Philip Roth não durou mais que dia e meio ou 2 dias.

Perdoem-me. Mas este vai ficar para breve pois ainda não terminei a leitura e não me quero precipitar a emitir uma opinião que até pode ser injusta.

 

António VP [editor]

publicado por saidaemergencia às 17:11

comentário:
Ao ler o seu post, mais precisamente a parte que passo a citar:

“Não há muitos escritores que nos apelam desta maneira aos sentidos. Sepúlveda escreve como quem se senta ao pé de nós junto a uma lareira e nos faz passar o melhor dos serões de Inverno. É acolhedor de ler e não consigo deixar de pensar que sinto sempre que estou a ouvi-lo falar, e não a ler.”

Foi-me impossível não recordar uma frase que me disseram há uns dias atrás, não sei de quem é a autoria, mas dizia mais ou menos o seguinte: “Um verdadeiro escritor é aquele que nos consegue transportar para o mundo que cria”

Sepúlveda, pelas suas palavras é capaz de o fazer, nunca li, por isso seria injusto dizer se gosto ou não gosto e talvez nunca venha a ler, mas achei interessante. Contudo, sou mais fã do fantástico, embora também leia outros géneros. Para mim um dos melhores autores é sem dúvida Robert Jordan, com a série Roda do Tempo, só é pena que só os quatro primeiros volumes (12 série completa) tenham sido traduzidos para português. Acho que se as editoras começam uma colecção deveriam levá-la até ao fim. Se as vendas não eram o que esperavam façam tiragens menores, agora é injusto que os leitores fiquem com a colecção incompleta.
Aconselho também um livro da Torey Hayden “ A Criança que não queria Falar” é um livro que nos faz pensar na vida e de como esta pode ser cruel para com as crianças.

Susana de A.
Susana a 28 de Janeiro de 2010 às 09:50

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