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Set 11

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«A Dança dos Dragões» senta no Trono da literatura nacional

«A Dança dos Dragões», de George R.R. Martin, editado pela Saída de Emergência, era um dos livros mais aguardados do ano. Muitos foram os leitores que contaram os dias para a sua edição, o que aconteceu agora no início da rentrée. Verdadeiro fenómeno mundial, Portugal também não está a passar impassível por esta obra que ganhou nova força desde que foi adaptada à televisão pela HBO, que considerou a série «uma espécie de ´Sopranos´ na Terra Média».

Luís Corte Real é o editor de George R. R. Martin em Portugal. Evidentemente, vê com orgulho e satisfação o sucesso que a saga de «A Guerra dos Tronos» alcança no nosso país, principalmente porque são livros que passam ao lado dos media, que continuam a considerar o género fantástico de literatura menor, apesar de somar cada vez mais leitores. Segundo Luís Corte Real, o segredo desta série pode ser resumida a uma palavra: «personagens».

Acredita que este era o livro mais aguardado da rentrée?

Os fãs de George R. R. Martin estavam, há cinco anos, à espera deste volume. Em Portugal não estariam há tantos anos, mas não deixa de ser um livro aguardado por uma legião de fãs que pretendiam, desesperadamente, respostas para perguntas levantadas nos volumes anteriores. E para quem conhece a escrita do autor, que agarra o leitor e nunca o larga, um hiato de tantos anos pode ser exasperante. As personagens são de tal maneira apaixonantes que custa estar tanto tempo sem as rever. Imagino que, quando a série terminar realmente, irá haver muito choro e ranger de dentes!

Como explica o sucesso de «A Guerra dos Tronos», já com quase uma dezena de livros? Quais são os seus principais segredos?

Quem pegar no primeiro volume perceberá, em poucas páginas, quais são as razões do sucesso. Se tivesse que resumir uma palavra diria: personagens. A história é empolgante, arrebatadora e imprevisível, mas são as personagens que nos conquistam. Tanto os heróis como os vilões. Até porque, ao contrário do que acontece com a obra de Tolkien e da fantasia em geral, em «A Guerra dos Tronos» o bem e o mal não são absolutos nem facilmente distinguíveis.

Quando decidiram publicar esta colecção? E esperavam alcançar o sucesso que vemos ou acabou por surpreender a própria editora?

Comprámos os direitos da saga em 2005 ou 2006, quando a fantasia épica nunca chegava aos tops portugueses e a esmagadora maioria das sagas ficava a meio devido às vendas baixas. Na altura apostámos em capas distintas, marketing e promoções fortes, imensa promoção na internet e as vendas acabaram por ser boas. Mesmo antes de estrear a série da HBO, os últimos três livros da saga já tinham chegado, ainda que fugazmente, aos tops nacionais. Mas reconhecemos que o grande boom se deu com a estreia da série da HBO. Os fãs que já liam ficaram doidos e milhares de pessoas, rendidas à qualidade dos episódios, ficaram ansiosas por deitarem as mãos aos livros.

Poderia falar da evolução desta colecção no nosso país em termos de público? Agarrou desde o primeiro volume ou foi conquistando leitores com o decorrer da série?

Esta saga de George R. R. Martin é um pouco como o Tintim: pode ser lida dos 7 aos 77. Em Portugal, tal como no resto do mundo, começou bem mas tem melhorado de volume para volume.

Muitos comparam o universo de George RR Martin a Tolkien. Qual é a sua opinião?

Só vejo duas semelhanças: ambos escrevem num género que se convencionou chamar de «literatura fantástica» e ambos vendem muito. De resto, não existem mais semelhanças. Tolkien é uma espécie de «pai» para os escritores e leitores de fantasia, o seu lugar é intocável, aconteça o que acontecer. Posso é apontar diferenças entre ambos: onde o conceito de maldade em Tolkien é reprentado por Orc feios e sujos, em Martin é representado por um cavaleiro louro de armadura brilhante e sorriso encantador. Onde o conceito de bem em Tolkien são heróis puros, corajosos e que recitam canções alegres, em Martin são bastardos, anões deformados, antigos vilões com coração mole. E depois, se for preciso, Martin mistura tudo e volta a dar. Em Tolkien seria impensável Aragorn ou Frodo morrerem, mas Martin faz isso mesmo logo nos primeiros volumes e o leitor fica: «E agora, se ele morreu isto já não vai interessar!» Mas Martin faz com que interesse. Mais, faz com que não consigamos largar o livro.

Acredita que a fantasia está a reviver uma nova fase na literatura mundial? Se sim, quais são os motivos?

A fantasia extravasou do nicho em que se encontrava remetida com Harry Potter e o renascimento de Tolkien depois dos filmes de Peter Jackson. A questão é se este sucesso é apenas uma moda ou, tal como aconteceu com o romance histórico ou o livro policial, se este género passará a estar presente nos tops com regularidade e nas zonas nobres das livrarias. Espero que seja este o caso, pelo menos no que toca à fantasia que não tem medo de ombrear com o melhor que os outros géneros têm para oferecer.

No entanto, no nosso país, continua a ser um género um pouco ignorado pela crítica. Ou não?

Felizmente passamos muito bem sem a crítica - até porque a maioria dos críticos está condicionado por favores, pressões, amizades ou tentativas de descobrir a roda. E, claro, há sempre o elemento do preconceito (a fantasia e a ficção científica são para crianças, etc e tal). Nos Estados Unidos, por exemplo, já não será tanto assim pois existe uma crítica especializada no género, mas no nosso pequeno quintal rectangular, salvo honrosas e corajosas excepções, a crítica é quase sempre uma lástima de tão previsível no que vai criticar.

É possível acompanhar a série saltando alguns livros? Para um leitor que descubra hoje «A Guerra dos Tronos», é imprescindível começar do primeiro volume? Se sim, isso não poderá afastar alguns interessados devido ao número de páginas que terá de ler?

É obrigatório começar no primeiro volume. A não ser que se tenha visto a série da HBO e, nesse caso, já se pode começar no terceiro. Mas não aconselho - os dois primeiros volumes acrescentam e muito à série. Admito que o tamanho pode desencorajar alguns leitores, mas isto também tem o outro lado da moeda: se gostarem vão ter muito para ler antes de se acabar.

Das obras já publicadas, qual aquela que mais aprecia?

Recomendo o primeiro volume pois é quando são apresentadas as personagens. Muitas delas já não estão vivas no volume que acabámos de publicar («A Dança dos Dragões»), mas para saber o que aconteceu há ainda sete volumes para devorar.

«A Dança dos Dragões» é o livro mais maduro de «A Guerra dos Tronos»? O que destacaria da obra em relação ao passado da série?

Não é mais nem menos maduro. É igualmente realista, violento, cru, surpreendente e, apesar do grande tamanho da lombada, lê-se mais depressa do que gostaríamos.

Quem não leu «A Guerra dos Tronos» está a passar ao lado de grandes livros?

De grandes livros, enredos inteligentes e personagens inesquecíveis. No fundo, de uma saga que revolucionou um género tanto no papel como na televisão. Como disse a HBO: «´A Guerra dos Tronos´ é uma espécie de ´Sopranos´ na Terra Média.»


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publicado por saidaemergencia às 15:34

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