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Nov 09

Nos dias de hoje, felizmente, é-nos muito difícil imaginar uma situação de impotência total face às injustiças ou violação dos direitos. Falo, é claro, da realidade europeia. É certo que podemos sempre recordar algum triste episódio de abuso de autoridade ou alguma excepção que daria uma capa de jornal. Mas de um modo geral vivemos num ambiente que se pauta pela justiça. A nossa capacidade de protesto chega ao ponto de qualquer estabelecimento comercial ser obrigado a ter um livro de reclamações, o que nos garante que certas coisas não passam completamente impunes. Mas nunca é demais recordarmo-nos dos dias em que as coisas não foram assim. E dos locais onde as coisas continuam a não ser assim.

Por coincidência, no espaço de apenas um mês a nossa editora teve o prazer de editar duas obras marcantes (cada uma à sua maneira) que retratam ambientes extremamente hostis e violentos. O heróico feito de Aristides de Sousa Mendes em “O Cônsul Desobediente" e um episódio ocorrido no período do Holocausto em Chamem a Polícia”, a obra mais curta de Irvin D. Yalom até hoje. Mas desenganem-se os que acharem que curta significa menos. É certo que não se trata de um "Quando Nietzsche Chorou". Quer em profundidade de personagens ou ideias existenciais. Mas "Chamem a Polícia" consegue ser uma obra que nos toca profundamente no lugar onde vive o nosso sentimento de justiça. Imagino que todos já vivemos, nalgum momento das nossas vidas, um momento de profunda injustiça. E imagino que pelo menos uma vez não fomos capazes de mudar esse acontecimento. Eu sei que sim. E esta obra de Yalom, mesmo que curta, fez-me sentir outra vez essa sensação de uma forma tão intensa que me senti um espectador real. Um personagem dentro do livro. Imaginem-se judeus, sabendo que ao caminhar numa rua, a qualquer momento, alguém com uma determinada patente poderia - apenas porque sim - implicar convosco. Depois... bom, digamos que depois não haveria muito a fazer senão aguardar pela sorte. Não havia amigo, autoridade ou divindade que vos pudesse salvar da raiva, ironia e perversidade de um (des)humano desses que vos tivesse escolhido como vítima. Podiam implorar, mas... e se implorar lhe despertasse ainda mais ódio? Podiam tentar alegar que não eram judeus, mas... e se essa traição o fizesse odiar-vos ainda mais? Podiam ser arrogantes, mas... e se ser arrogante o fizesse ter vontade de nos torturar até implorarmos pela vida? Provavelmente, terminar num campo de concentração seria tão mau quanto morrer rapidamente nas mãos de um qualquer oficial perturbado.
Este poder infinito que era concedido a algumas pessoas num período de injustiças, marcou muitas vidas. Mesmo as que não se perderam nesta guerra. O que quero dizer é que nem sempre se mencionam os que sofrem ainda hoje, por terem presenciado actos de violência ou injustiça e não puderam gritar: "Chamem a Polícia!".
Uma leitura intensa para quem quer compreender mais um capítulo da humanidade. E para melhor compreender que somos o somatório de tudo o que vivemos.

António VP [Editor]

publicado por saidaemergencia às 22:43

7 comentários:
"Mas de um modo geral vivemos num ambiente que se pauta pela justiça. A nossa capacidade de protesto chega ao ponto de qualquer estabelecimento comercial ser obrigado a ter um livro de reclamações, o que nos garante que certas coisas não passam completamente impunes."

Convém não confundir a ilusão de algo com a sua existência plena. Esta última não existe. É uma utopia. Ambiente que se pauta pela justiça ? Livros de reclamações ? Falamos de que país, já agora ? Porque daquilo que sei, a justiça por cá anda pela hora da morte. A real escolha é entre não ter escolha nenhuma ou a ilusão de escolha. Como diria o George Carlin, parafraseando-o, tudo isto é um sonho, porque só a dormir é que se pode acreditar nele.
Pedro Almeida a 2 de Dezembro de 2009 às 00:42

Caro Pedro Almeida,
Quero agradecer o seu comentário, que me permite concretizar melhor a ideia que queria transmitir.
Compreendo o que diz relativamente à justiça. (talvez um dia destes escreva algo sobre o estado da justiça em Portugal). No caso, o que quis dizer é que vivemos numa sociedade que sabe aquilo que é justo. Em que uma lei existe e é aplicada. Se é bem ou mal executada... isso é outro assunto. Referia-me a um período em que os direitos humanos e o direito à vida eram violados de uma forma bárbara. De modo algum comparável com os problemas judiciais ou mesmo sociais do nosso país. O que quis dizer, é que dificilmente concebemos a hipótese de as ruas andarem patrulhadas por uma autoridade capaz de espancar e torturar os transeuntes apenas por ódio e diversão. Sem que alguém pudesse levantar o olhar ou apelar a quem quer que fosse. Não havia a quem apelar. A barbaridade vinha de cima e o que estava em questão era a sobrevivência. Esta comparação serve exactamente para dizer que as nossas preocupações, hoje, são coisas como um livro de reclamações: um direito que consideramos que nos assiste. Quando na altura, o que nos assistia seria caminhar na rua, de cabeça baixa, rezando para que ninguém implicasse com a nossa cara. Imagina esse sufoco? Eu, seguramente que não.

um abraço,
António V.P. a 10 de Dezembro de 2009 às 09:50

Boas António!

O Diderot dizia que a grande manha do Diabo era convencer-nos de que não existia. Pois a grande manha da nossa Democracia é convencer-nos de que já não vivemos em ditadura...

Olá!
Que engraçado mencionares isso sobre o Diabo... No primeiro trimestre haverá novidades sobre o Diabo e a sua postura. Algo para a Bang! Deixo esta provocação.

abraço,
António V.P. a 11 de Dezembro de 2009 às 14:07

Pesquisei no google " Publicar Blogues " e apareceu este endereço, com um texto sobre a publicação de livros.
Não se trata de publicar um livro, mas a minha filha, que está a fazer Erasmus na Alemanha, criou um blogue para retratar essa experiencia e partilhar com os que lhe são queridos.
Agora que o Erasmus está a acabar, pensámos, em passar para um pequeno livro, os textos, as fotos e os comments desse blogue, como uma forma fisica de guardar essa recordação. Seria uma prenda simpática. No entanto, e apesar de achar que até pode ser uma ideia de negócio interessante, não encontro, qualquer empresa gráfica que o faça.
Pedindo desde já desculpas pelo abuso, mas uma vez que parece ligado(a) ao meio editorial agradecia que se soubesse de alguma empresa que fizesse esse tipo de trabalho, o seu contacto.
os meus mil obrigados.
maria a 5 de Dezembro de 2009 às 18:13

Será impressão minha ou a nova chancela da SdE, "Camões &Companhia" foi buscar à Livros D´areia o mesmo design gráfico?Tambem "herdou" o seu projecto editorial?

J.Marinho
j.marinho a 21 de Dezembro de 2009 às 12:11

Caro J. Marinho,

Para esclarecer a sua questão, o designer gráfico da Livros de Areia, Pedro Marques, tem desenvolvido também a linha gráfica da colecção Camões & Companhia, numa colaboração independente. Mas a editora Livros de Areia mantém a sua independência e em nada está relacionada com a Saída de Emergência.

Safaa Dib
saidaemergencia a 27 de Dezembro de 2009 às 17:31

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