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Jun 11

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Batalha é o mais recente romance de David Soares, uma bela fábula que remete à sensibilidade do leitor para a ligação do ser com a religião. Esta é a história de uma ratazana que não acreditava num criador do mundo e procurava conhecer o sentido da vida humana.

"Até hoje, ainda não vi nada com o coração. O meu coração é cego."

A trama, passada no início do século XV, começa quando um casal de ratos do campo encontra uma ratazana recém-nascida. Sem saberem ao certo que animal é aquele, e apesar dos sentimentos contraditórios, acabam por adoptar aquele ser indefeso e criam-no como um filho. É-lhe dado um nome, afinal, todos têm que ter um, mas fica explícito que este pode ser alterado para um mais adequado quando a altura certa chegar. A ratazana vai crescendo e inicia uma jornada que a vai alterar e a todos os que a encontram.

Batalha, nome que o protagonista vem a adoptar mais tarde, questiona-se pelo sentido religioso, pela essência humana, pelo fundamento da vida, pelo seu propósito no mundo. As respostas são retiradas do contacto com as mais diferentes personagens, desde uma porca compadecida com uma vida trágica, até a uma pedra esculpida com a forma de um homem que deseja ver a sua matéria transformada em carne, que, com opiniões divergentes, fazem surgir o conflito necessário para que o protagonista retire as suas conclusões.

O leitor acompanha esta ratazana rejeitada pelo seu aspecto rude e pelos pensamentos que desafiam a maioria dos animais que encontra. Batalha conhece crentes resignados com a sua condição por a considerarem desejo dos "pais do mundo", seres que utilizam a fé dos outros como forma de manipulação e auto-promoção, e até quem não consiga acreditar em um ser superior ou que apenas aceita esta ideologia por questões culturais.

"Porque quando a morte chega, nós já não existimos. A morte não nos pode fazer mal nenhum."

Existe uma outra ideia com carácter muito forte que já surgiu em outras obras do autor: o facto de a obra (a arte) ser a única forma de vencer a morte, afinal esta é "testemunha da existência". Acaba por ser isto o que a ratazana procura: o feito que a tornará imortal.

"Ele viveu para isto. Era a sua obra."

David Soares é já conhecido pela sua fantástica capacidade de encantar o leitor com as palavras. As descrições são soberbas e tornam a leitura natural e imparável. Os diálogos não são apenas para ser lidos, mas também para serem meditados.

E quando o leitor pensa que não há mais nada para o surpreender, o autor revela um final perfeito e comovente, que não deixa qualquer dúvida para a grandeza deste livro de apenas 200 páginas.

Destaco ainda as bonitas ilustrações de Daniel Silvestre Silva, que enriquecem esta publicação.

O leitor que acompanha o trabalho de David Soares já esperava um trabalho de grande qualidade, mas mesmo assim vai ficar impressionado com este romance forte, belo, inteligente, com cenários mais leves do que o habitual mas onde o estilo próprio é incontestável.

Para terminar, confesso que já há muito tempo que o final de um livro não me deixava com lágrimas nos olhos. Recomendo, recomendo e recomendo!

Para seguir no blogue Bela Lugosi is Dead.

publicado por saidaemergencia às 17:04

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