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Jun 11

 

Acabo de ler um dos melhores romances portugueses da atualidade, “Cidadão Orson Welles”, de Maria Helena Ventura, poeta e romancista portuguesa que eu não conhecia e só vim a saber dela, por acaso, através da Internet. A primeira coisa que me salta à vista é seu estilo. De uma delicadeza e doçura até então nunca visto, por mim, na literatura contemporânea, inclusive em autores famosos como Fernando Namora e José Saramago, dos quais sou um aficcionado leitor. Ferreira de Castro seria um bom exemplo de comparação, porém sua literatura realista estaria muito afastada do poético e do romântico, restaria o estilo doce, sereno e digamos até que confortante. Assim, Maria Helena Ventura, nesse livro, me parece realmente singular. E seria inútil destacar um pedacinho de texto, uma frase aqui, pela vaidade de mostrar ao leitor que o li, pois o livro é compacto, todo ele escrito na melhor forma e linguagem, fácil e simples, por isto mesmo profundo, denunciando a poetisa que está por trás da estória. Sendo assim, o jeito melhor é remeter meus leitores à minha página na internet, registrada no final desta matéria, onde me sentirei mais à vontade para transcrever um texto do romance, a título de antologia.

Evidentemente a autora trata da história do grande cineasta americano Orson Welles, mas não é bem um romance histórico, eu diria que é uma estória de amor, envolvendo um personagem histórico famoso, do cinema, daí nele encontrar verdades históricas apensadas à estória, referente à vida e obra de Orson Welles, o que acaba muita coisa factual passando um pouco despercebido, tendo em vista que o pretexto inicial vai ficando na sombra da história envolvente e fabulosa do amor de Iasmina, digamos que a verdadeira mulher da vida desse inquieto e perseguido criador de grandes obras do cinema, como por exemplo, “Citzen Kane” e “D. Quixote”.  Essa mulher, uma quase menina tunisiana – aqui, sim, ficção - seqüestrada para a prostituição, na luta para libertar-se da má sorte ou do destino, reconstruindo sua vida noutro pais, formando-se depois em História da Arte, apaixonando-se pelo cinema e pelo artista e mito Orson Welles, - vai com muita garra em busca de sua paixão, de seu verdadeiro amor. É um idílio realmente reconfortante para os que sofrem e lutam pelo que querem, conseguindo a felicidade entre mudanças, viagens, separações, morte, sofrimento e crianças pequenas separadas dos pais: Theo e Geórgia, ou simplesmente Gia.

A estória é tão apaixonante que, mal a gente termina, quer voltar à primeira página e reler com o mesmo gosto ou até maior força. A personagem Iasmina se torna tão envolvente, tão carismática, que o leitor, chega a desejar conhecê-la, por que também a ama. Eis a grandeza da criação de Maria Helena Ventura. A personagem se estabelece em nós como uma verdadeira pessoa, carne viva, digna da nossa admiração e de uma simpatia que encarnam as pessoas vivas quando lutam por um ideal de vida e de amor, de fé. De grandeza de coração.

Por fim, refiro a outra particularidade que me chamou a atenção. Maria Helena Ventura, sendo mulher e criando uma das mais fortes personagens do romance contemporânea, essa valente e doce Iasmina, não se torna uma feminista, não depõe contra ou a favor deste ou daquele sexo, nem se denota em sua linguagem nenhum outro preconceito. Isto demonstra a contemporaneidade da escritora, sabedora de que todos somos iguais e desiguais, homens e mulheres, cada um com seus defeitos e qualidades, não se devendo apurar este ou aquele defeito. Ao contrário, conviver com eles é o que de melhor aprendemos. A vida é a arte em forma de compreensão e sensibilidade. A arte é uma xerox bem tirada da vida, de forma que ninguém depois vai saber qual é o original. Artista e amante, apurada escritora na prosa e no verso, louvo seu estilo e a estrutura do seu romance, contemporâneo demais, belo demais para os nossos tempos de “best-sellers” americanos, ingleses e sei mais de que país, que circulam às carradas pelo mundo, muitas vezes fazendo tanto mal.

Francisco Miguel de Moura é escritor, membro da Academia Piauiense de Letras e da IWA-International Writers and Artists Association, Toledo, OH, USA.


Para seguir no blogue do autor aqui.

publicado por saidaemergencia às 12:12

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