08
Jun 11

É surpreendente verificar como o largo espectro de géneros literários não conheceu na sociedade de consumo, comparativamente ao período anterior, o da industrialização e da expansão dos lazeres, uma grande ampliação. O romance (heróico, histórico, lírico, de aventuras, de amor…), o teatro, a poesia, a literatura infantil, a trama policiária, o folhetim, etc., não são propriamente um património da história da literatura universal, mas são géneros e subgéneros com uma longa existência O que verdadeiramente floresceu em inovação, a partir da sociedade de consumo, foram as ramificações a um ritmo por vezes alucinante destes subgéneros. E hoje este vastíssimo espectro é amplamente explorado pelas indústrias de entretenimento e pelos mercados de produtos literários. Bem vistas as coisas, vivemos também a híper-escolha na ficção literária. Em qualquer livraria encontramos nos escaparates a literatura de viagens, de crónicas, a pornografia light, o romance histórico e a multiplicidade de subgéneros da literatura de aventuras, isto para já não falar no romance amoroso que não pára de se ramificar e desdobrar.
 

Vem esta introdução a propósito do regresso em força de Clive Cussler, um autor que se tem notabilizado como contador de histórias aventureiras passadas predominantemente numa atmosfera subaquática, o chamado thriller marítimo. Chegou a Portugal nos anos 80, graças ao Círculo de Leitores (mediante títulos como ”Recuperem o Titanic!”,” A Chantagem do Vixen03”e “ Exploração Nocturna”).
Depois apareceu esporadicamente, o que não deixa de causar perplexidade, já que os seus livros entusiasmam o público de mais cem países, são por vezes autênticos best-sellers. Além de escritor de ficção, Cussler dedica-se à investigação da história marítima e naval, fundou a NUMA (National Underwater & Marine Agency) uma organização não lucrativa com resultados na descoberta de navios afundados, o fruto deste trabalho é oferecido a universidades um pouco por todo o mundo. É ainda membro da Real Sociedade Geográfica de Londres.

Por definição, a literatura de aventuras é uma mescla de acção, intriga, emoções em torno de uma trama envolvente, há sufoco, quando tudo parece à beira da perdição, o herói, sempre talentoso ou façanhudo, encontra uma saída que leva à expiação ou ao castigo dos praticantes do mal. O que muda neste subgénero é a capacidade de absorver o leitor, de se deter um “estilo” com um chamariz singular e inconfundível: herói versátil e verosímil para aquele cabal desempenho, uma história galvanizante (se possível, mais de que uma, tudo bem entrançado, e com umas pitadas de cultura, bem doseadas),um desfecho reparador da justiça, mas emocionante Bem vistas as coisas, a chave da literatura de aventuras.

 

O livro que acaba de sair chama-se “Pacífico” (por Clive Cussler, Saída de Emergência, 2011). Tudo começa com o desaparecimento do submarino nuclear Starbuck no coração do oceano Pacífico… desapareceu totalmente armado e com toda a tripulação a bordo, não foram encontrados quaisquer destroços ou sinais de naufrágio. Imprevistamente ou não, Dirk Pitt, um famoso perito em assuntos marítimos encontra numa praia do Havai um único e sinistro objecto: o diário de bordo do Starbuck. Há ali frases demenciais: “Não nos procurem; os vossos esforços só podem acabar em vão…”. A seguir começa a busca do Starbuck, Dirk Pitt lança-se nesta operação temerária. Como é timbre da literatura de aventuras, muitos barcos têm vindo a desaparecer nos últimos anos no chamado “Vórtice do Havai”. A investigação tem o seu alto mistério, surgem referências à ilha mítica de Kanoli, qualquer coisa parecida com a Atlântida, décadas antes um gigante com olhos dourados andara à procura de pistas sobre Kanoli. Dirk Pitt é alvo de atentado, escapa airosamente. E parte para a operação de resgate, descobre um canalha superinteligente que assalta navios, instalou um arremedo de civilização no bojo profundo do mar. Muitas peripécias, há mesmo espionagem russa que é preciso dissuadir, há actos de heroísmo, Dirk Pitt, por força da lei do best-seller tem colaboradores masculinos e femininos, o final será feliz. Mais tarde ou mais cedo, Dirk Pitt voltará a enfrentar o mal. Clive Cussler é inexcedível no seu ramo, sabe arrebatar o leitor desde as primeiras linhas. Aqui e acolá, ultrapassa a métrica do best-seller: “Aquele nevoeiro era um grosso manto branco que se erguia da água em redemoinhos causados pela brisa ligeira, um manto opaco e sufocante, com a sua humidade pegajosa. Na ponte, os homens esforçavam os olhos, tentando, em vão, penetrar a neblina crescente. Uma mortalha húmida começava já a cobrir o navio e a luz do dia, ainda visível, transformou-se numa mistura sinistra de cor-de-laranja com cinzento, por causa da refracção da luz do sol poente”. Nada irá sobrar da civilização reinventada de Kanoli. Toneladas de rocha irão explodir, soterrando o mundo do diabólico Delphi, o submarino nuclear será resgatado, o Pacífico voltará a ter águas calmas e tranquilas. O perigo passou, o engenho termonuclear não foi capturado por gente tresloucada, cumpriram-se os trabalhos de Hércules. “Pacífico” empolga e cumpre o seu dever. Aliás, Clive Cussler explica porque criou Dirk Pitt: “Procurei construir um protagonista original, uma personagem que não fosse um agente secreto, um inspector da polícia ou um detective privado. Uma personagem algo indefinida mas com estilo”. Bem vistas as coisas, um herói culto, talentoso, algo sexy, destemido e com reflexos rápidos, trabalhando imperativamente naquilo que melhor sabe fazer, que é nas profundezas do mar. É o que se pede do entretenimento, uma leitura de distensão, fantasia associada a uma possibilidade histórica, sempre com a punição do mal, pois o bem tem que ficar disponível e apto para novas incursões dessa incurável maldade.

Os adeptos do subgénero não ficarão defraudados, está garantido.

publicado por saidaemergencia às 12:19

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