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Nov 09

Como publicar um livro? É a pergunta que persegue muitos aspirantes a autores, muitos indivíduos que sonham em ter um livro seu publicado numa casa editorial conhecida. Se pretende publicar um livro pela mera ideia fabulástica de ser escritor, então pense duas vezes. O termo escritor já não se aplica hoje em dia a todas as pessoas que têm livros publicados.

Mas se alguém pretende ser levado a sério nesta profissão, a verdade é que é fácil publicar em Portugal hoje em dia, se se souber combinar uma boa dose de inteligência, perspicácia, disciplina e persistência. Inteligência para conhecer o mercado e saber o que ele deseja num momento particular, perspicácia para saber quais os jogadores que interessa contactar, disciplina para escrever uma obra que mereça ser publicada com início, meio e fim, e persistência (na dose certa) para alcançar o objectivo.

Vamos supor que temos um indivíduo, o Sr.Silva, que concluiu uma obra que considera ser merecedora da atenção de editores. O Sr. Silva primeiro tem que ter consciência de que não são as opiniões de amigos que deverão fazê-lo pensar que é bom. Os amigos de aspirantes a escritores não devem ser considerados amigos do Sr. Silva; não são exigentes, têm medo de dizer a verdade para não magoar o amigo por isso preferem deixar o amigo fazer figuras, muitos deles não compreendem o mundo de edição de livros, mas ainda assim encorajam o pobre Sr. Silva. Há que recorrer a pessoas/amigos que saibam do que falam, com experiência de leitura e escrita.

 Mas imaginemos que o Sr. Silva até escreveu um manuscrito catita no qual investiu muito labor e pesquisa. Atenção que não falo de uma obra que tem potencial mas que só precisa de uma revisão, leia-se, precisa de ser toda reescrita. Se o Sr. Silva fosse uma celebridade, bastaria ligar para marcar uma reunião e provavelmente já teria publicação garantida em certas editoras, mas sendo um anónimo, como deve ele proceder para alcançar a tão almejada publicação?

Antes de mais, qualquer aspirante a escritor que se preze deveria conhecer o mercado que temos e acompanhar o trabalho que se tem realizado de ano para ano pelos vários intervenientes no processo. São inúmeras as casas editoriais que existem em Portugal, cada uma com a sua área de publicação específica. E atenção que eu não considero válido o trabalho das vanity presses que publicam à custa do autor. Já falei desse tipo de serviços antes e por esta altura é claro que não tenho uma palavra boa a dizer dessas empresas.

Conhecer o mercado é um aspecto importante. Atrevo-me a dizer tão importante quanto ter uma bagagem considerável de leituras para se poder ser um melhor escritor.

 Graças à Internet e à postura cada vez mais flexível das editoras, é possível ter um melhor vislumbre do modo de funcionamento do mundo de edição português. Há blogues de referência que acompanham regularmente as novidades editoriais, e também aquilo que se passa no mundo dos livros. Assim o Sr. Silva fica a conhecer várias coisas que apenas poderão beneficiá-lo, em particular, quais as editoras que lhe interessam na área que pretende publicar.

 Assim, se a obra do Sr. Silva foi inspirada por Boris Vian, Mallarmé, Zweig, Malraux ou Faulkner, não precisa de recorrer a uma editora que publique apenas literatura romântica. Mas se tiver sido antes inspirada por Tolkien, Gene Wolfe, Jack Vance, Whittemore, Silverberg, Vandermeer então o Sr. Silva sabe que não serão editoras como, por exemplo, a Relógio de Água, Assírio & Alvim ou Cotovia a publicá-lo.

 Agora que o Sr. Silva fez um bom trabalho de pesquisa e elaborou uma listinha de editoras-alvo para a sua obra (se o Sr. Silva tiver 18 anos, aconselha-se a esperar até aos 25 anos de idade), tem que passar ao próximo passo. O que vou escrever em baixo não significa que seja a solução tiro e queda para se ser publicado. Não há fórmulas nem palavras mágicas que permitam abrir as portas da edição. Mas parece-me, a mim, que não é um mau conselho para ser partilhado.

Convenhamos, já ninguém envia manuscritos por correio hoje em dia, a não ser por exigência de regulamentos de prémios literários. Mas quando um escritor se dedica a uma candidatura espontânea, tem que primeiro preparar uma carta (ou e-mail) em que procurará convencer o editor com uma boa argumentação de que o manuscrito que tem em mão tem potencial de publicação. A escrita desta carta diz muitas coisas sobre a pessoa que a escreveu. Diz se a pessoa está desesperada e está praticamente a implorar para ser publicada, diz se a pessoa sabe escrever ou não, em suma, diz se a pessoa deve ou não ser levada a sério.

 Não recomendo ao Sr. Silva que exponha a sua vida desde o infantário nesta carta. Deve limitar-se a escrever sobre a obra em si, e só quando for relevante acrescentar factos de pendor pessoal ou profissional. Não vale a pena puxar galões, não vale a pena mencionar doenças tenebrosas, não vale a pena dizer que foi rejeitado por 500 editoras antes de chegar às presentes mãos. O livro. A carta é sobre o livro, mas depois há a sinopse, que vai à parte.

 A sinopse de um livro é sempre algo extremamente complicado de elaborar. O Sr. Silva não quer deixar de mencionar um ou outro detalhe sumarento interessante e acaba por escrever um texto longo, enfadonho, desinteressante, que mata o seu livro em poucos segundos de leitura. Em manuscritos de fantasia isto então torna-se particularmente grave quando são adicionados nomes inventados em mundos inventados. Kalkahsh de Tyrin, príncipe do reino das Sete Cidades, é declarado inimigo mortal do irmão karaknov e defrontam-se na batalha de Sum Dum nos campos de Cehcitheh... Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz....... Fim da leitura.

A sinopse deve destacar o cenário, o enredo, o tema, as personagens, mas pouco mais e sempre de forma concisa, tentando trazendo ao de cima o potencial da obra. Não o prejudica nada se pensar: será que um leitor tem interesse em ler esta obra até ao fim?

Quando já tem a carta feita, deve então procurar contactar as editoras da sua listinha e tentar saber o nome do editor/editores e qual a melhor forma de submeter um manuscrito à sua apreciação. Como hoje em dia é tudo feito por e-mail, assim que souber os e-mails do editor ou assistente, envia então a cartinha com a sinopse mais o manuscrito anexado. O Sr. Silva que peça para acusarem a recepção da obra e se não acusarem, telefona a chatear. O mínimo que uma editora deve fazer é acusar a recepção do e-mail.

 E depois vem a espera... A longa e excruciante espera... Não sei qual o tempo em média que se deve esperar. De qualquer modo, a haver interesse, o Sr. Silva será contactado. Se começar a desesperar pela espera, pode sempre telefonar e perguntar em que pé vão as coisas. Mas há coisas que o Sr. Silva não deve fazer de forma nenhuma: chatear a editora com repetidas mensagens, perseguir o assistente ou editor nas redes sociais ou blogue e bombardeá-lo com mensagens, mandar e-mails em que manifesta a sua impaciência e desagrado com a demora de forma veemente (a não ser que tenha boas razões para isso).

 Agora imaginemos que o Sr. Silva foi aprovado para edição pela editora XX. Ah maravilha! O Sr. Silva vai ser escritor! Vai ser rico! Desengane-se, Sr. Silva. Rico não vai ser de maneira nenhuma. Não estamos nos EUA em que o escritor vende um livro a uma editora e pode fazer ainda algum dinheiro jeitoso com essa venda. Até porque em Portugal só em raras excepções publicam-se mais do que 2000 a 3000 exemplares (e falo das grandes editoras). Elabora-se um contrato, recebe um X de pagamento, e depois fica à espera da percentagem que cabe ao autor pelas vendas, se houver boas vendas.

 Quem está nisto pelo dinheiro, vai ficar desiludido. Bastante desiludido. E a não ser que se chamem Miguel Sousa Tavares ou José Rodrigues dos Santos, não dá para viver só da escrita em full-time, sorry!

Agora, imaginemos que o editor pedia ao Sr. Silva para reescrever o final do seu manuscrito porque achou-o demasiado fraco. O Sr. Silva só não tem um enfarte porque vai ser escritor daí a meses e quer estar bem de saúde para ver o seu livro publicado. Reescrever o final?! Nem pensar! Mas quem é que esse editor pensa que é? O manuscrito está perfeito, não precisa de ser reescrito coisíssima nenhuma. Pois é, Sr. Silva, acontece que o editor sabe o que é melhor para si e se ele recomenda a reescrita do final, então é porque o final tem que ser reescrito. E agradeça aos santos não lhe ter pedido para reescrever mais coisas.

 Chegamos à parte da produção do livro. A única coisa que interessa nesta parte ao autor é a revisão do seu manuscrito, um processo que pode e deve acompanhar, mas de forma comedida e sem exigências de prima-donna. A capa será escolhida pelo editor, e não pelo autor, pelo que se não gostar da capa, pode expor os seus argumentos junto ao editor, mas este terá sempre a última palavra.

 Finalizada a produção do livro, passamos à distribuição nacional do livro e a respectiva promoção. É importante frisar que cada editora tem o seu sistema de distribuição, algumas mais fortes do que outras. Quanto mais abrangente for o circuito de distribuição, significa que maior poder de manobra e capacidade financeira detém uma editora.

 E eis que chegamos à fase final, a promoção do livro. Nos tempos que correm o autor tem um papel cada vez mais activo na divulgação do seu livro junto ao público, seja através de redes sociais, blogues, lançamentos (nacionais e regionais), contactos de imprensa, etc. É cada vez mais esperado que o autor faça esse trabalho em colaboração com a editora que fará o seu próprio trabalho de divulgação. Mas a verdade é que quanto melhor o perfil comunicador do autor, mais hipóteses tem de chamar a atenção de forma positiva. Nunca é muito bom para o autor demonstrar em público que afinal não fez bem o trabalho de casa.

Há também muito sururu em torno de cunhas e necessidade de cunhas para conseguir publicar um livro. Acreditem em mim. Se as publicações em Portugal fossem todas à base de cunhas não veríamos tantos livros a serem lançados no mercado diariamente, para além de que seriam sempre os mesmos. Que elas existem, existem, mas atenção que conhecer pessoalmente o editor não significa ser publicado por ele. Significa apenas que tem mais hipóteses em ter o manuscrito lido e avaliado. Um editor afinal está a gerir uma empresa que não pode funcionar em função de amigos dos amigos. Da mesma forma, nunca passaria pela cabeça de um bom editor recusar ver candidaturas espontâneas porque sabe que pode estar a escapar-lhe algo de valioso.

Como devem adivinhar, esta não é uma ciência exacta e está sujeita a muitos factores. Nada é garantido, mas se as vossas expectativas não forem cumpridas, não culpem apenas as editoras. E principalmente não me culpem a mim se nada do que aconselhei resultar.

 

Safaa Dib

Assistente Editorial

publicado por saidaemergencia às 14:33

136 comentários:
Apesar de nunca ter ponderado publicar um livro mas sendo o meu apelido Silva este excelente post e a forma como descreve cada um dos passos quase nos lança no pensamento/desafio seria eu capaz de?

Abraço,

Jls

jls a 11 de Novembro de 2009 às 18:31

vou guarda esta pagina para daqui seis meses edita meu livro de frases q o titulo e escrito para poucos
cicero cardoso ferreira a 27 de Janeiro de 2013 às 15:06

Força! :)
jls a 2 de Fevereiro de 2013 às 16:25

Tenho o meu pronto e vou tentar publicá-lo. Não me parece uma empresa fácil, pois todos os editores torcem o nariz quando um escritor desconhecido se apresenta perante eles. Vamos ver se consigo.

Boa tarde, já publicou o seu livro? se não, contacte-me através do email margaridacorreia.pc@gmail.com
Cumprimentos
Margarida correia a 11 de Setembro de 2014 às 17:04

vou guardar este post...pois eu no futuro gostava de ter a sorte de editar um livro...ainda me faltam 2 anos para os 25 anos! :D

jinhos**
tinkerbell a 11 de Novembro de 2009 às 21:38

Eu não sou Silva, mas acho o texto excelente. Aconselho a Saída de Emergência a colocá-lo no site com umas mudançazitas (por exemplo, mudar "Silva" para "Asdrúbal" para não ofender metade da população portuguesa).
Jorge a 11 de Novembro de 2009 às 23:02

Há aí uma coisa que eu gostava de ser esclarecido. Disse que quando um suposto escritor faz contrato com a editora recebe um X pagamento. Imaginemos que a SDE , como foi o caso, se mostra interessada pela obra de um escritor e lhe diz: Você envia-nos o livro, nós pagamos todos os custos de produção da obra (isto porque os custo da publicação de um livro de um escritor ainda "virgem" são divididos pelos dois, autor e editor) e você não recebe nada.

Sendo esta a forma de um escritor ver a sua primeira obra lançada pergunto se estão MESMO dispostos a pagar a um novo escritor como também assegurar os custo de produção do seu livro. É que vocês dizem que um escritor não tem que pagar qualquer tostão e ainda recebe dinheiro (percentagem), é isso?

Cumprimentos
Anónimo a 11 de Novembro de 2009 às 23:04

Caro anónimo: "isto porque os custo da publicação de um livro de um escritor ainda "virgem" são divididos pelos dois, autor e editor"

Em circunstância alguma deve o autor, "virgem" ou não, ter de pagar ao editor para ser publicado. (Excepção feita às edições de autor encomendadas a gráficas ou empresas especializadas que se comprometam apenas a imprimir o livro com um orçamento transparente e sem subterfúgios para aliciar autores com promessas de fama e dinheiro. No entanto, estas empresas não são editoras, e se forem honestas não se apresentam como tal.)

No mercado editorial tradicional, é o editor que paga ao autor, com um adiantamento, uma percentagem sobre o preço de capa ou os dois. A modalidade de pagamento varia consoante os meios financeiros do editor, o tipo de obra publicada e o estabelecido em contrato, e todo o investimento em revisão, paginação, design, impressão, distribuição, etc. é responsabilidade deste. Nunca do escritor.

"Sendo esta a forma de um escritor ver a sua primeira obra lançada pergunto se estão MESMO dispostos a pagar a um novo escritor como também assegurar os custo de produção do seu livro. É que vocês dizem que um escritor não tem que pagar qualquer tostão e ainda recebe dinheiro (percentagem), é isso?"

Exacto, é assim que funciona uma verdadeira editora. Claro que primeiro é preciso que aceitem o manuscrito, mas essas já são contas de outro rosário.
Luís Rodrigues a 12 de Novembro de 2009 às 12:48

Pois, um editor é no fundo um vendedor e, como um bom vendedor, só vende aquilo que o povo compra. Se o povo compra frutos silvestres venham os frutos silvestres! Se no ano que vem o povo compra bananas velhas, pois, por mais que o editor não goste delas, é bananas pisadas que vai vender. Obviamente, não é legitimo pedir a um vendedor que não venda, afinal de contas, as editoras são uma empresa como outra qualquer e não a Santa Casa da Misericórdia. Não percebo é porque criticam as que lhes apraz fazer as coisas de forma diferente... Ele há sempre alguém que trabalha pelo amor à arte e não vejo mal algum nisso. Se assim não fosse ninguém podia comer frutos silvestres em época de banana e vice-versa. Ou lichias! Que é assim fruta mais esquisita...
Eu só não percebo é porque é que os editores não ESCREVEM os livros. Se sabem tão bem escrever, o que vende e até o que é que funciona melhor num livro do que o autor. Até da capa sabem melhor! Sabe Deus que já fazem o trabalho do revisor, tradutor, editor, promotor, etc. Pois se são tradutores, revisores, promotores, criadores e o que mais puderem ser, porque não escritores? Começo a perguntar-me para que quererão o Sr. Silva!
Ou estaremos perante a aplicação do ditado "quem não sabe fazer, ensina"?

Liliana Arcanjo

Liliana Arcanjo a 11 de Novembro de 2009 às 23:35

"Eu só não percebo é porque é que os editores não ESCREVEM os livros. Se sabem tão bem escrever, o que vende e até o que é que funciona melhor num livro do que o autor. Até da capa sabem melhor! Sabe Deus que já fazem o trabalho do revisor, tradutor, editor, promotor, etc. Pois se são tradutores, revisores, promotores, criadores e o que mais puderem ser, porque não escritores?"

Que grande confusão vai por aí. Só porque uma editora se responsabiliza pelo trabalho de revisão, tradução, divulgação, distribuição, não significa que seja o editor em pessoa a rever, traduzir, divulgar, etc. Para isso contratam-se especialistas, ou para que julga a Liliana que as profissões de "tradutor" ou "técnico de marketing" servem?

Quanto à parte do editor saber ou não de escrita, a partir do momento em que dá dinheiro a um autor pelo seu manuscrito, é bom que saiba se está a comprar uma coisa que vale a pena. Sim, um editor é um vendedor, mas também está a investir e a tomar riscos, e não pode (por uma série de razões que não têm necessariamente a ver com a qualidade do manuscrito) aceitar publicar tudo o que lhe apareça pela frente.

"Sim, um editor é um vendedor, mas também está a investir e a tomar riscos, e não pode (por uma série de razões que não têm necessariamente a ver com a qualidade do manuscrito) aceitar publicar tudo o que lhe apareça pela frente."

Pois, exacto. Eu disso o contrário? Parafrasear não vale.
Não percebo é porque é que muito editor não admite isso... No artigo não vejo uma linha em que se indicie, sequer ao de leve, que o Sr. Silva possa ter feito um excelente trabalho! Por vezes (e não, não é o caso da grande maioria dos aspirantes a escritores) até é apresentado um bom trabalho mas, simplesmente, não é coisa que vá vender. E quando está um logo ali ao lado, pior, que vende... Pois, não há que pensar duas vezes.
Agora não percebo este tom de desdém para com o Sr. Silva. Como se o mesmo se devesse reduzir à sua insignificância de operário fabril do 3º mundo e render-se à grandeza da Nike que, vejam bem, admite que ele cosa os seus ténis e ainda lhe paga um euro à semana para isso! Extraordinário! Dê-se mas é por feliz Sr. Silva!

E em relação ao comentário do editor fazer tudo, estava obviamente a ser irónica. A minha intenção era evidenciar que o editor se imiscui em TUDO, fazendo valer a sua opinião acima de qualquer outra, seja o outro mais qualificado para falar do assunto ou não. Se bem que no que troca à tradução (eu sei bem para que serve a profissão, muito obrigado, ganho a vida à custa dela) a música é outra. As cunhas aí nem se fala. Sabe falar dois dedos de inglês/francês e já está habilitado a traduzir! E depois saem os manuscritos que se vê...

Liliana Arcanjo
Liliana Arcanjo a 12 de Novembro de 2009 às 14:45

"Não percebo é porque é que muito editor não admite isso..."

Mas, caramba, não é óbvio? Claro que o editor se "imiscui" em tudo. É o seu mister, e o autor confiou-lhe um manuscrito para transformar em livro, para bem ou para mal, e se não fosse o editor a preocupar-se em supervisionar a produção e distribuição do livro, quem é que o faria?

Já sei, o nosso editor que não admite imiscuir-se em tudo podia pôr o autor a desenhar as capas. Havia de sair uma coisa esperta, a julgar por alguns dos trambolhos que já vi (excepção feita aos Alasdair Grays e Chip Kidds deste mundo). Ou se calhar dizia ao autor para se amanhar ele com as revisões, com o InDesign, com a gráfica, com os stocks de papel, com os distribuidores, com as devoluções e os atrasos no pagamento.

Ainda não percebi o que há de tão escandaloso neste envolvimento do editor, mas pelos vistos o que a Liliana prefere são editores que se estejam nas tintas.
Luís Rodrigues a 12 de Novembro de 2009 às 15:14

"No artigo não vejo uma linha em que se indicie, sequer ao de leve, que o Sr. Silva possa ter feito um excelente trabalho!"

Não há? Que tal: "Sr. Silva, aceitamos o manuscrito, vamos investir dinheiro na sua publicação, e ainda por cima vamos pagar-lhe." Quem me dera que o meu trabalho fosse sempre louvado (ou louvável) desta maneira.

Compreendeu-me mal, caro Luis. O que menciono que o editor não admite era referente à qualidade dos manuscritos que lhes chegam. Peço desculpa pelo mal entendido.
Relativamente ao trabalho do editor, longe de mim levar-lhe a glória. Não sugeri nenhuma das, óbvias, parvoíces (autores a desenhar capas, etc.) que referiu. Há trabalho para todos os envolvidos no processo! E sim senhor, o editor supervisiona todo o processo e trata de mais uma série de coisas deveras desagradáveis para os restantes envolvidos e sobre as quais os mesmos pouco sabem mas, lá está, também não se metem. Cada um faz aquilo que sabe. O editor parece achar que sabe fazer tudo, melhor até do que aqueles que o fazem. Eu não tomaria de modo algum o lugar do editor. Mas também não admitiria que o editor tomasse o meu como tradutora, por mais que ele achasse que percebia de tradução. Suponho que seja desagradável para um escritor ou ilustrador sofrer o mesmo tratamento. Se bem que talento não é coisa que dê para apresentar credenciais… Ufa, a sorte que tenho em ser tradutora!
E a mim parece-me que a frase “Sr. Silva, aceitamos o manuscrito, vamos investir dinheiro na sua publicação, e ainda por cima vamos pagar-lhe” é, novamente, a minha parafraseada, ou antes, a minha frase “Agora não percebo este tom de desdém para com o Sr. Silva. Como se o mesmo se devesse reduzir à sua insignificância de operário fabril do 3º mundo e render-se à grandeza da Nike que, vejam bem, admite que ele cosa os seus ténis e ainda lhe paga um euro à semana para isso! Extraordinário! Dê-se mas é por feliz Sr. Silva!” é a da autora parafraseada.
O tom de todo o artigo é hostil e condescendente, no mínimo. Não vamos começar a discutir o conceito de sarcasmo, certo?
Liliana Arcanjo a 12 de Novembro de 2009 às 15:44

Parabéns pela clareza do texto ... não serve apenas aos candidatos a escritores, mas também aos novos e, ainda, inexperientes editores.

Cumprimentos,

Ozias Filho
Editora Vozes
Ozias Filho a 12 de Novembro de 2009 às 11:16

Concordo plenamente. Ajuda também os jovens editores.
sofas a 5 de Março de 2011 às 17:22

Caro Anónimo,

Quando a nossa editora aceita publicar um manuscrito de um autor, de qualquer autor, seja ele novato ou experiente, obviamente que lhe paga um adiantamento relativo aos direitos de autor, assim como a editora é responsável pelos custos de produção do livro. O autor não paga nada. E o mesmo se passa em todas as editoras (que merecem esse nome) e é assim que se passa em todo o lado. Mas eu sei que há empresas que solicitam aos autores a comparticipação dos custos de produção do livro, mas essa não é a norma e é uma prática mal vista no mundo da edição.

Cara Liliana Arcanjo,

Quando diz "Não percebo é porque criticam as que lhes apraz fazer as coisas de forma diferente..." está a referir-se ao post sobre pseudo-editoras da minha autoria? É porque se está, então colocou o seu comentário no blogue errado. O blogue da pessoa que escreveu esse post está em http://retratos.wordpress.com e lá pode expor a sua argumentação que eu terei todo o prazer em responder.



Safaa Dib



Safaa Dib



saidaemergencia a 12 de Novembro de 2009 às 12:29

Muito obrigado pelo artigo, é verdadeiramente esclarecedor. Tenho também uma dúvida, um autor que, em último recurso, opte pelo self-publishing, pode vender directamente junto das livrarias, pequenas ou grandes? Ou tem de recorrer a uma empresa de distribuição dedicada? Todas as editoras utilizam uma empresa de distribuição intermediária ou também vendem directamente às livrarias? Isso também será importante para a margem que um autor possa conseguir, não?

Obrigado!
António a 12 de Novembro de 2009 às 13:10

Há editoras que optam pela distribuição directa (venda directa aos livreiros) e as que escolhem uma empresa intermediária. Se uma empresa optar pela venda directa, já não tem que ceder uma percentagem à distribuidora, logo, haverá uma maior margem de lucros.

Mas claro que o processo acaba por não ser tão simples assim. Há inúmeras vantagens em ter uma distribuidora. Acaba sempre por trazer mais benefícios, mesmo que implique ceder uma fatia do bolo. Para poderem ser (bem) vendidos, os livros têm que estar afinal visíveis.

Penso que um autor self-published pode perfeitamente proceder à distribuição do seu livro, mas se os livreiros o aceitam é outra história.

Esta história de distribuição é outra que merecia um longo post.

Safaa



Obrigado pela resposta. Só por curiosidade, por que acha que os livreiros podem não aceitar o livro se for apresentado directamente pelo autor? (Partindo do princípio que o livro está dentro dos requisitos de qualidade mínimos exigidos por uma livraria, a nível de apresentação, claro está, não de conteúdos). As grandes livrarias preferem lidar com empresas de distribuição do que com editoras ou autores self-published? Para uma pequena editora ou autor, a introdução de mais um intermediário não é apenas uma forma de criar mais entraves ou atrasos de pagamento? Imagine um autor que apenas tinha interesse em pequenas tiragens para as grandes superfícies livreiras, será difícil de o realizar sem recorrer a intermediários?

Muito obrigado,
António
António a 12 de Novembro de 2009 às 15:04

Cara Safaa Dib,

Gostaria de entrar em contacto consigo. O seu nome foi-me indicado numa conversa com o Richard Zimler. Deixo aqui o meu email: francisco.sousavieira@gmail.com

Obrigado,

Francisco
Francisco Sousa Vieira a 23 de Janeiro de 2012 às 00:06

se estiver a escrever um livro de fantasia e tiver criado um mapa, ao publicar um livro e se este fosse escolhido, poderia enviar um "exemplar" do mapa?
Sb a 12 de Março de 2014 às 21:07

Peço imensa desculpa se quebrei uma qualquer etiqueta cibernética... Longe de mim criar confusões deste género. Referia-me tão somente à sua referência no artigo às tais "vanity press".

Liliana Arcanjo
Liliana Arcanjo a 12 de Novembro de 2009 às 14:52

Esclarecedor e necessário texto. Já faltavam explicações como esta, há já algum tempo. Talvez se evitassem certos constrangimentos, burlas e enganos.
Será até estranho, que não sejam as próprias editoras, a esclarecer desta forma os potenciais escritores. Teriam tudo a ganhar.

Só não fiquei elucidada numa questão: depois de seleccionadas as editoras a enviar os manuscritos, deve-se enviar apenas para uma e esperar uma resposta, ou enviar logo para as que foram seleccionadas, mesmo que sejam quatro ou cinco?

andreia
Anónimo a 12 de Novembro de 2009 às 15:16

Só um esclarecimento: eu falei em adiantamentos na questão dos pagamentos de direitos de autor, mas há alguns casos particulares que me esqueci de referir em que o pagamento manifesta-se na forma de royalties, não havendo necessariamente um adiantamento. Ou seja, não será pago antes, mas é pago depois. A questão aqui é que, independentemente destas minúcias técnicas, e independentemente do ganho ou não da editora, o autor é sempre financeiramente compensado.

Quanto às restantes questões colocadas, prometo responder logo com mais tempo.
saidaemergencia a 12 de Novembro de 2009 às 16:49

Só há uma pequena questão da minha parte: porque é que um autor precisa de esperar até aos 25 anos para publicar (ou tentar) a sua obra?
Por vezes um adolescente de 15 anos é capaz de escrever bem melhor do que idosos que passaram a vida toda a tentar escrever uma frase que se aproveitasse e que, mesmo assim, falharam. Não estou certa?
Filipa a 12 de Novembro de 2009 às 19:35

“E se o Sr. Silva tiver 18 anos, aconselha-se a esperar até aos 25 anos de idade”

E se o Sr. Silva não disser a sua idade e for avaliado pela qualidade/maturidade do seu manuscrito? A editora deita para o caixote da reciclagem os tomos cuja a idade do autor não se conheça?

“ Agora imaginemos que o Sr. Silva foi aprovado para edição pela editora XX. Ah maravilha! O Sr. Silva vai ser escritor! Vai ser rico!”

O Sr. Silva, se tem um livro bom já é escritor há muito tempo…não acha?

“Agora, imaginemos que o editor pedia ao Sr. Silva para reescrever o final do seu manuscrito porque achou-o demasiado fraco.”

Pois…Mas subentende-se que o escritor já viu e reviu o seu manuscrito antes de enviar. Já mostrou a várias pessoas para lerem e comentarem e darem opinião. Depois chega o editor (que até gosta muito do Romeu e Julieta) e diz: Eu acho que eles deviam morrer no final…Está na moda as personagens morrerem no final…
É deste tipo de reescrever que está a falar?
É que se é, é preciso ter vergonha. Muita vergonha. Então está a pedir ao autor para contar outra história? Onde começa o produto comercial e onde acaba o livro?
É que se o autor não tem o final melhor, é porque não faz melhor, porque ele já viu e reviu o livro. Se não, insere-se no caso dos livros com potencial, mas têm de ser reescritos e não devem ser enviados para as editoras.


Já agora...Há algum autor totalmente "virgem" editorialmente que a SdE tenha já editado?
Rui Marques a 12 de Novembro de 2009 às 20:54

Gostei muito do que escreveu a Safaa Dib, sinceramente! Parabéns pela objectividade.
Sou um aposentado que há algum tempo pensa escrever um livro que contenha a minha biografia. A família e alguns amigos "empurram-me". Depois de reflectir e interiorizar a hipótese comecei a elencar alguns assuntos. Como aposentado tenho algum tempo de verdade. resido no Brasil e vou de vez em quando a Portugal onde fiz a minha vida profissional. Ha pouco tempo comecei a pôr em prática aquilo que penso ser possível publicar. Já escrevi 20.000 palavras em 33 páginas de word, estou no principio, mas não sei se estou no bom caminho. Não pretendo um livro volumoso, mas quero ter uma ideia do possível ou recomendável . Podem dar-me umas dicas ? Obrigado e ..... um Bom Ano para o Grupo

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