05
Abr 11

(continuação)


Agora outro exemplo, relacionado com protecção pessoal, a partir de uma tentativa de sequestro no estrangeiro. Como tudo mais, esta forma de protecção começa contigo a entrar na mente do mau da fita. O teu objectivo é sequestrar um estrangeiro. Não é um estrangeiro em concreto (alvos de alto valor são um problema individual, embora também estes sujeitos aos mesmos princípios), apenas um estrangeiro ao acaso. Então o que é que precisas para realizar o plano?

Primeiro, é preciso escolher um alvo. Esta parte é fácil - qualquer estrangeiro serve. Em seguida, é preciso avaliar a vulnerabilidade do estrangeiro. Onde é que serás capaz de agarrá-lo, e quando? Para responder a essas questões, precisas de seguir o alvo durante algum tempo. Controlar se ele é pontual, uma criatura de hábitos, se ele gosta de fazer o mesmo caminho para e do trabalho, no mesmo horário todos os dias, começarás a sentir-se encorajado…

Mas, e se em vez disso, durante esta fase de avaliação, vês o alvo a dirigir-se para o seu carro e começar cuidadosamente a procurar dispositivos explosivos improvisados. O teu pensamento imediato será logo: Alvo complicado, altamente consciente com a segurança. Será muito difícil sequestrar alguém assim.

Se tu és o potencial alvo, notas como a tua actuação consciente de segurança torna-se na camada mais externa da mesma?

Mas suponhamos que o potencial sequestrador decide apreciar um pouco mais a tua conduta. Agora, ele vai aprender que tu nunca fazes o mesmo caminho para o trabalho. Tu nunca vais nem vens nos mesmos horários. Como é que estará o seu plano de rapto agora?

Note-se que, a colocares-te no lugar da oposição, identificaste um padrão comportamental no qual ele terá de estar a par antes de concretizar o seu crime: Vigilância. Antes de seres sequestrado, vais ser avaliado. Avaliação implica vigilância. Agora sabes qual o comportamento a procurar e optar antes que o incidente ocorra. Se estivesses a tentar-te seguir, como é que o farias? Isto é o que se deve tentar alcançar.

Talvez o suposto sequestrador acabe por descobrir pontos de estrangulamento – uma certa ponte, por exemplo – que tens de atravessar todos os dias no teu caminho para o trabalho. Este seria um bom lugar para ele montar uma emboscada. Mas, porque tu sabes disso, serás excepcionalmente alerta quando te aproximas dos pontos de estrangulamento. Como ele observou o teu comportamento no ponto de estrangulamento, ele apercebe-se que uma vez mais és bastante cauteloso com a tua segurança e, portanto, serás uma má escolha como alvo. Novamente a dissuasão. Se ele é precipitado e age neste momento de qualquer maneira, as camadas interiores de segurança, veiculo fechado e blindado, tácticas de condução defensivas, presença de um guarda-costas, o acesso a uma arma, novamente, acima de tudo, preparar-se mentalmente e emocionalmente para o perigo e eventual violência – todos terão assim tempo para entrar em jogo.

Outros exemplos: Se precisares de dinheiro rápido, onde é que irias procurar alguém para roubar? Talvez uma vítima possa ser alguém que vá a uma caixa de multibanco? Em caso afirmativo, que tipo de caixa multibanco escolhias? Onde deverias de esperar? E se quiseres roubar um carro? Supondo que não és um profissional a arrombar fechaduras e conseguir por um carro a trabalhar com um fio, onde é que irias? Talvez a um vídeo clube, ou a uma lavandaria onde as pessoas deixam as chaves na ignição, porque eles “vão demorar só um minuto”? Agora, munido com a melhor compreensão das tácticas e objectivos de um criminoso, como é que deveste comportar para melhor te protegeres?

Um elemento comum que pode-se ver em tudo isto, é a necessidade vital de estado de alerta, de consciencialização da situação. Entendendo como as ameaças aparecem e como são concretizadas irá ajuda-lo a sintonizar correctamente o teu estado de alerta. Se não estiver adequadamente alerta para uma ameaça, então quase que certamente serás incapaz de defender-te contra a mesma quando ela se materializa.

Repara que até agora a discussão não inclui nenhuma menção a artes marciais. A razão é que as artes marciais, auto-defesa, lutas, apesar de serem assuntos relacionados, não são idênticos. A relação e as diferenças entre estas áreas esta fora do propósito deste artigo.
Por agora, basta dizer que as artes marciais podem ser pensadas como uma camada interna de auto-defesa. Se de facto tiveres de utilizar os teus movimentos de artes marciais, então por certo alguma das camadas exteriores de segurança foram quebradas, sendo que neste momento estás por certo numa posição pior do que aquela que estarias, no caso de as camadas externas tivessem funcionado.

Dito de outra maneira:

Pensando como a oposição, levando as ameaças a sério e não estar em constante negação da sua existência, mantendo a consciência apropriada e alerta em cada situação, é uma posição infinitamente mais valiosa para a auto-defesa do que a formação em artes marciais.

Repare que eu tenho feito artes marciais deste ou daquele estilo, desde a adolescência. Eu adoro artes marciais por vários motivos. Eu não estou a discordar nem a discutir o seu valor, mas antes a questionar o seu custo e eficácia em alcançar um certo objectivo – que é o da protecção pessoal efectiva. Não importa o nível de habilidade que tens em artes marciais, a pessoa que reconhece antecipadamente e assim consegue manter-se afastado de uma emboscada tem uma hipótese de sobreviver superior a quem tem que lutar para sair de uma.

Portanto pratica o modo de pensar da oposição, e terás uma hipótese de perdurar idêntica a John Rain.

 

 

     

publicado por saidaemergencia às 17:14

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