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Mar 11

Parte do charme da série sobre o meio americano meio japonês John Rain parece estar no uso de tácticas realistas. A verdade é que Rain, tal como o seu autor, tem cinturão preto de Judo, é um veterano em armas de fogo, e têm vários cursos em tácticas defensivas. Mas isso tem relativamente pouco a ver com a longevidade de Rain. A principal perícia de Rain e a chave da sua sobrevivência reside na sua capacidade de pensar como o seu opositor.

Preparado? Vá buscar o bloco de notas, porque:

Toda a protecção e segurança efectiva, toda a verdadeira auto-defesa, são baseadas na capacidade e disposição para pensar como o seu opositor.

Estou a escrever este artigo no meu portátil, num café que gosto, existem à minha volta uma série de pessoas a fazer o mesmo que eu. Penso para comigo, se eu quisesse roubar um portátil, este seria um óptimo lugar para o fazer. Entras, pedes um café e um bolo, sentaste e esperas. Eventualmente, um desses utilizadores de computador vai acabar por se levantar e fazer uma breve viagem ao WC. Ele vai pensar, “Bom, vou só um minuto à casa de banho.” O que ele não sabe, é que basta um minuto para me levantar e sair com um portátil de 2000 Euros. (Note como os criminosos são adeptos de pensar tal como as suas vítimas. É preciso tratá-los com o mesmo respeito.)

Então, eu determinei onde a oposição está a planear este crime (neste Café) e, eu sei como vai fazer (agarrar no portátil e fugir). Agora eu tenho opções:

1. Evitar o café totalmente (para evitar que o crime aconteça)

2.Prender o portátil à cadeira com um cadeado Kensington (evita que o crime ocorra, é difícil de usar alicates de corte discretamente num café ou levar um portátil preso a uma cadeira); e

3. tentar apanhar o ladrão em flagrante delito, persegui-lo ou atacá-lo.
 
Das três opções, a nº2 é a escolha mais sensata.
A primeira é muito desagradável para mim – eu gosto deste café e despacho aqui um monte de trabalho.
A terceira é trabalhosa e muito imprevisível. Para quê lutar quando se pode evitar uma luta? Esta é a auto-defesa de que estou a falar, lembrem-se, auto-protecção, nada de luta ou melodrama.
Quanto à segunda, naturalmente estas medidas não vão tornar o crime impossível de ser realizado. Mas haverá verdadeiramente algumas que o façam na totalidade? O plano é fazer com que o crime seja bastante difícil de realizar e que assim o criminoso escolha outro sítio para o efectuar. Sim, se quatro ou cinco Ninjas dedicarem as suas vidas a roubar o teu portátil e, conseguirem apanhar o teu rasto até ao café, então eles muito provavelmente vão conseguir roubar o portátil enquanto vais ao WC, mesmo que esteja preso à cadeira. Mas, o mais provável é que o opositor seja alguém, que fica tão feliz por roubar o teu portátil como o de qualquer outra pessoa no café. Ao tornares-te o alvo mais difícil, estás a encorajar que seja outra pessoa a ser roubada.

O que nos leva a uma desagradável, mas extremamente verdadeira parábola:

Se estás a fazer uma corrida pelos bosques com um amigo e, de repente estão a ser perseguidos por um urso, então tu não tens que correr mais que o urso. Tens apenas de correr mais que o teu amigo.

Exceptuando ao nível de protecção executiva (presidentes, empresários, embaixadores e outras personalidades), tu não estás a tentar correr mais do que o urso. Está apenas a tentar correr mais do que o teu amigo.

Vamos combinar esses dois conceitos - pensar como a oposição, correr mais que o teu amigo - com um exemplo no campo da segurança particular. E vamos acrescentar um elemento crítico: Toda a boa segurança é composta por camadas.

Se estás a pensar em assaltar uma casa, o que é que procuras? E o que é que deves evitar?

De um modo geral, os teus objectivos principais são obter dinheiro, bens e fugir. (Invasão do domicilio é um caso à parte, mas tal como a auto-protecção, é dirigida por referência pelos mesmos princípios). Começarias por observar montes de casas. Lembra-te que não estás a querer roubar uma morada concreta, só queres roubar uma casa. Quais é que estão mais na penumbra? Quais é que estão mais afastados da estrada e dos vizinhos? Luzes e barulhos na casa? Sinais de um sistema de alarme? Um cão a ladrar?
Ao pensar como o ladrão ficas pronto para implementar a próxima camada na segurança da tua casa. Com uma combinação de luzes com sensor de movimento, a manutenção dos arbustos aparados para evitar possibilidades de dissimulação, a colocação de placas com o aviso de sistema de alarme, com um cão, mantendo o carro ou carros na garagem, deixando ligadas luzes apropriadas e a televisão ligada, assegurando-se de que as caixas de correio não estão cheias de correspondência, tudo isto faz com que o ladrão decida imediatamente, durante a fase de observação e avaliação, roubar a casa de outra pessoa.

Se ainda assim o ladrão não foi imediatamente dissuadido durante esta primeira camada, então receberá mais desencorajamento na próxima. Ele observa melhor e apercebe-se que tens trancas reforçadas em todas as portas, que o sinal de alarme não é bluff – as janelas estão de facto ligadas a um sistema de alarme. Se ele olhar por uma fenda no batente de uma porta vai descobrir que é reforçada, ele percebe que o vidro é resistente ao choque. Oops – está na hora de ir a outro lado, outro lado onde seja mais fácil.

Ok, o ladrão é estúpido. Ele continua a tentar de qualquer maneira. Agora, a segunda camada acima descrita, não o conseguiu dissuadir mas está a atrasá-lo. Está a fazer com que ele demore uma eternidade para entrar. Está a fazer barulho. A um dado momento o tempo e o ruído combinados podem começar a persuadi-lo a desistir (de volta à dissuasão). Mas se ele ainda assim insistir em continuar, o ruído já deverá ter-te alertado, e assim fez com que ganhasses tempo para aplicar camadas internas de segurança: O acesso a uma arma, chamar a polícia, recuar para uma sala segura, acima de tudo preparares-te mentalmente e emocionalmente para o perigo e a violência possível.

(Continua...)

                          

publicado por saidaemergencia às 15:46

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