05
Nov 09


Que me desculpe a crítica engravatada, mas sempre que elogia um autor português (ou, neste caso, um que escreve em português) fico desconfiado. É que, regra geral, quando vou ler esse autor em busca da apregoada excelência, desilusão, não encontro nada de especial. O defeito até poderá ser meu, mas fica-me sempre a pergunta: serão o crítico e o autor amigalhaços? A crítica será uma amabilidade a alguém? Talvez, este é um mercado pequeno… e estamos em Portugal. Mas isso não aconteceu com Jesusalém, o primeiro livro que li de Mia Couto. Concordo com o melhor que li da crítica.

 A premissa deste livro fez-me lembrar vagamente outro que li quando devia ter uns quinze anos, A Costa dos Mosquitos, de Paul Theroux: um pai, enlouquecido, arrasta a família para a selva pois convence-se que o mundo acabou (o tempo enublou detalhes, mas acho que era qualquer coisa do género). Jesusalém é um livro bonito, tocante e escrito de forma quase poética. Apesar de (infelizmente) não ser apreciador de poesia, sou sensível à prosa poética. E se a maior parte da prosa poética costuma soar-me forçada e vazia, não foi esse o caso com Mia Couto. Adorei o seu português, a simplicidade do seu texto, algumas frases são dignas de se anotarem para as relermos. Mais: apesar de estar na moda escrever livros em que se secundariza a história em detrimento de outras habilidades, Mia Couto tem o mérito de conquistar a crítica sem ir em modas.

 Em suma, e este é o maior elogio, fiquei com vontade de ler mais Mia Couto e de o recomendar aos amigos.

Luis CR [editor]

 

publicado por saidaemergencia às 12:06

3 comentários:
Um dos meus autores preferidos :)
Dele li Terra Sonâmbula e Contos do Nascer da Terra. O Mia Couto é, para mim, um dos melhores autores contemporâneos.
Uma das grandes surpresas que tive, foi que quando estive em Moçambique receber de um casal amigo, A Chuva Pasmada (que é simplesmente maravilhoso). Foi uma daquelas prendas de ocasião, que teve muito significado para mim. Obrigado. Um dia destes deixo aqui o peso que tem sentir o pó da terra africana a entrar-nos pelo nariz enquanto se lê um livro de Mia Couto.
António VP [Editor] a 5 de Novembro de 2009 às 16:47

E eu agora fiquei com vontade de o ler. :)
Tiago M. a 5 de Novembro de 2009 às 19:48

"Um livro bonito" é uma expressão que se lhe aplica. Pareceu-me ter ficado um pouco aquém da força expressiva de Terra Sonâmbula. Contudo, creio que é o Mia Couto cronista/contista que brilha com mais intensidade, tanto ao nível da narrativa quanto da inventividade linguística que tanto o caracteriza (e, às vezes, a espaços neste último romance, quase o caricaturaliza).
Rafael Miranda a 5 de Novembro de 2009 às 23:48

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